Papagaios Endiabrados

O ornitólogo Dante Martins Teixeira, professor do Museu Nacional do RJ nos oferece uma visão um tanto inusitada da relação entre homens e psitacídeos ao longo da História. Ele nos conta em um artigo publicado recentemente que, em virtude do seu dom de falar, os papagaios eram associados à possessão demoníaca, pois segundo a tradição cristã só existiam três classes de seres dotados do dom da palavra:anjos, homens e demônios. Lutero acreditava estar “o diabo nos papagaios e macacos, sendo esse o motivo pelo qual eles podem imitar as pessoas”. No decorrer da História, alguns psitacídeos mostravam-se tão loquazes que inspiravam a séria desconfiança de serem animais demoníacos ou possessos.



Nos dias de hoje, existe uma forte tendência de humanizar os animais, exemplificando o quanto as relações do homem com o chamado “mundo natural” podem ser multifacetadas, revelando um universo além de qualquer previsão em termos de amplitude e complexidade. Nesse sentido, a existência de aves capazes de imitar a voz humana, como os papagaios ou mainás, torna essa convivência ainda mais intrincada e evidencia que as centenárias dificuldades de estabelecer limites entre o animal e o humano continuam bastante presentes em nossa cultura e envolvem as mais inesperadas espécies zoológicas.
O ornitólogo Dante Martins Teixeira, professor associado do Departamento de Vertebrados do Museu Nacional do Rio de Janeiro nos oferece uma visão um tanto inusitada da relação entre homens e psitacídeos ao longo da História. Ele nos conta em um artigo publicado recentemente que, em virtude do seu dom de falar, os papagaios eram associados à possessão demoníaca, pois segundo a tradição cristã só existiam três classes de seres dotados do dom da palavra:anjos, homens e demônios. Lutero acreditava estar “o diabo nos papagaios e macacos, sendo esse o motivo pelo qual eles podem imitar as pessoas”. No decorrer da História, alguns psitacídeos mostravam-se tão loquazes que inspiravam a séria desconfiança de serem animais demoníacos ou possessos.
Durante o período da nossa história conhecido como Brasil Holandês, o conde Maurício de Nassau se regozijava por possuir um papagaio (Amazona aestiva) endemoniado que respondia e formulava perguntas. A habilidade incomum dessa “ave demoníaca” em formular perguntas e dar respostas “tão acertadas como se fosse uma criatura racional” acabaria por se converter em uma história célebre na Europa do século XVII, tendo sido mencionada inclusive no “Essay concerning Humane Understanding” do filósofo britânico John Locke (1632-1704).
Uma versão dessa história ainda circula em Pernambuco graças à cultura oral, pois os moradores contam que alguns habitantes naquele tempo teriam ensinado o hino batavo a um papagaio. Como o desempenho dessa ave era dos mais impressionantes, decidiram mandá-lo como presente ao “rei da Holanda”, conforme nos conta Dante Teixeira. Sua Majestade, porém, nunca tinha visto semelhante criatura e cortou-lhe a cabeça logo no começo da cantoria, pois um animal falante só podia ser algo demoníaco.
No Brasil, os relatos sobre os papagaios possessos sobreviveriam pelo menos até o penúltimo quartel do século XVIII, conforme demonstra a obra do jesuíta João Daniel escrita entre 1757 e 1776. O texto distingue quatro espécies de papagaio que aprendem a falar com maior facilidade que outras. O jesuíta relata que estes papagaios quando jovens, "não só aprendem bem a falar, e cantar, mas também a rir e a chorar; e a arremedar aos animais, e tanto as vezes falam que se fazem suspeitos de que nele fala o diabo".
Mesmo considerando o fundamentalismo religioso tão presente nos dias de hoje, afigura-se bastante incomum o fato de psitacídeos muito falantes, agressivos ou com comportamento fora do usual serem encarados como exemplos de metempsicose ou possessão, chegando mesmo a atrair exorcismos. Trata-se, contudo, de uma posição bem minoritária, pois a grande maioria continua a ver com bons olhos os papagaios e afins como bichos engraçados e maliciosamente espertos, valorizando bastante sua faculdade de imitar a voz humana.
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